Porque é que não devemos suprimir aquilo que sentimos?

Luís Chambel Martins

Psicólogo Clínico

Sobre o autor

Sendo o leitor humano, certamente já terá tido a experiência de febre. Se é como eu, tê-la-á provavelmente considerado incómoda e ponderado tomar um fármaco antipirético ou anti-inflamatório de modo a conseguir baixar a temperatura corporal. 

Tentar reduzir aquilo que nos incomoda é perfeitamente compreensível. No entanto, a literatura médica enfatiza: além de se tratar de um fenómeno natural do organismo, a febre tem efeitos benéficos no combate a vírus e bactérias, desempenhando uma função protetora. Para além disso, tratando-se de uma febre persistente e/ou associada a outros sinais e sintomas, continuar simplesmente a diminuí-la sem investigar as causas subjacentes pode levar a que os problemas que a desencadeiam se agudizem.

Ora, tudo o que até agora escrevi quanto à febre se aplica, com as devidas adaptações, aos sentimentos que temos e podemos querer suprimir, como é o caso da ansiedade, da tristeza ou da raiva. Além de serem reações naturais, têm múltiplos efeitos benéficos para nós. Já pensou como seria se, perante um urso, os nossos antepassados não sentissem medo e não fugissem rapidamente?

Então, em vez de tentarmos suprimir aquilo que sentimos, o desafio será reconhecê-lo, nomeá-lo, senti-lo e deixá-lo ir a seu tempo (os nossos sentimentos podem ser vistos como ondas no oceano, tendendo frequentemente a aparecer, a aumentar, a diminuir e a desaparecer com relativa rapidez), colocando depois a nós mesmos as seguintes questões:

  • Porque é que este sentimento estará a surgir agora?
  • Que mensagem é que ele me está a tentar transmitir?
  • Como é que ele se enquadra na minha vida (passada, presente e/ou futura)?

É certo que pode não ser tarefa fácil… por isso, tantas vezes optamos simplesmente por ignorar o que sentimos e por nos distrairmos com qualquer outra coisa que capte a nossa atenção. Alivia, não é verdade? Mas esse alívio persiste no tempo, ou o que queríamos suprimir volta assim que a distração termina, por vezes até mais forte do que antes?

Estimo que a resposta possa alinhar-se mais com a segunda hipótese… os nossos sentimentos podem ser insistentes, mas são também sábios. Compreendo, porém, que tudo isto pareça complexo… talvez se trate de algo que valerá a pena fazermos primeiro em conjunto com o nosso terapeuta, no contexto de uma relação de cuidado e confiança, para que mais tarde possamos fazê-lo nós mesmos. Pode contar comigo.


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