O Amor (Próprio)

Dra. Marta Flores

Psicóloga Clínica

Página da autora

Neste mês do amor, convido-vos a fazer uma reflexão sobre o impacto do afeto e do carinho do outro em nós.

Para alguns de nós pode não ser fácil receber o afeto do outro, seja ele em que formato for: um beijo, um abraço, um sorriso, uma surpresa, uma palavra…

Podemos ter dificuldade em deixar entrar dentro de nós estes gestos afetivos, em aceitarmos o reconhecimento ou assumir a nossa valorização. Desconfiamos do outro e daquilo que nos quer dar, sentimos que não merecemos, não somos dignos, não é para nós. 

Deixar entrar alguém no nosso mundo pode parecer assustador, sentimo-nos vulneráveis, perdemos a sensação de controlo e podemos acabar por evitar ou afastar esta experiência com medo que seja dolorosa. 

É preciso permitirmo-nos sentir…

O processo de aceitar afeto pode ser difícil…para que possamos aprender a receber é preciso parar, sentar connosco próprios e estar atentos ao que sentimos cá dentro e ao impacto interno daquilo que o outro nos deu. 

O que sinto quando o outro é carinhoso comigo? Sinto-me merecedor / merecedora de amor? Quando olho para mim, o que vejo?

O processo de aceitar e saber receber também está relacionado com a nossa auto-estima, a forma como olhamos para nós e nos vemos, com as nossas experiências passadas, com as relações precoces que tivemos…quando nos permitimos receber abrimos espaço para a construção de novas experiências, novas crenças, novas formas de nos olharmos e contemplarmos.

Re(construímo-nos) aceitando que somos merecedores de amor, de afeto, de carinho, confiando que aquilo que o outro que nos dá é verdadeiro e tem valor.

Podemos mesmo pedir ao outro que nos dê afeto aos poucos, ao invés de manifestar o seu sentimento com intensidade, para que possamos ir gerindo dentro de nós, para tomarmos o nosso tempo para assimilar e processar aos invés de evitar ou afastar. 

Neste mês do amor (e sempre ) lembre-se de também ser amável consigo! 

Natal (des)encantado

Dra. Marta Flores

Psicóloga Clínica

Página da autora

Se lhe falar em prendas, luzes, decoração, música, chocolate quente, união, alegria…automaticamente lembra-se da época de Natal? Sim? E se lhe falar em tristeza, ansiedade, depressão, isolamento e solidão. Também associa estas sensações à época de Natal?

Em dezembro, somos arrebatados e levados para um lugar mágico onde parece que nada de mal nos pode acontecer, onde os problemas ficam longe e onde somos obrigados a ser felizes o tempo todo. As luzes que piscam mantêm-nos atentos a elas, as músicas que ecoam nas ruas transmitem alegria, o cheiro a lareira traz-nos recordações que nos aquecem o coração, a procura do pinheiro perfeito e das decorações perfeitas são o nosso foco, enfim, quase que colocamnos em pausa a nossa vida atribulada e complexa e entramos num ritmo diferente. Contudo, o Natal pode trazer emoções contraditórias.

Podemos sentir a falta de um ente querido quando notamos um lugar vazio à mesa. Podemos sentir-nos sozinhos por estar longe da família. Podemos sentir ansiedade e stress quando não encontramos o presente perfeito. Podemos sentir-nos frustrados por ter gasto mais do que aquilo que nos era possível. Podemos sentir raiva quando sabemos que não temos a família perfeita que parece existir nos anúncios televisivos. Podemos sentir que falhámos se terminamos o ano com um divórcio ou uma separação.

É importante permitirmos a nós mesmos sentir estas sensações e emoções menos boas, mesmo numa altura em que parece que estas têm de ser camufladas por não ficarem bem no quadro natalicio. Por sua vez, a aproximação do final do ano pode também trazer consigo um impacto negativo na nossa saúde mental e pode aumentar estas sensações e emoções.

Colocamos tudo em perspetiva e muitas vezes percebemos que não atingimos os objetivos que tínhamos delineados, não estamos onde desejávamos estar, parece que não saímos do lugar, mesmo quando os anos passam.

Proponho que este ano, em vez de nos punirmos por tudo aquilo que ainda nos falta alcançar, tentemos identificar as pequenas vitórias e sucessos que fomos vivendo ao longo do ano.

Partilho com vocês algumas dicas para que possam viver esta época com mais saúde mental:

– fazer uma lista de pequenas coisas que me fizeram feliz este ano;

– ajustar as expetativas: não somos perfeitos, não temos a família perfeita;- tentar sempre dar o nosso melhor é suficiente;

– se se sentir triste ou ansioso fale com um amigo, combine um encontro com alguém que não vê há muito tempo;

– se perdeu um ente querido recentemente ou recorda com saudade alguém que já não está presente procure alguém com quem partilhar como se sente;

– procure estar com amigos e familiares;

– não faça comparações da sua vida com a vida dos outros;

– não se deixe levar pelo excessivo consumismo, compre apenas o que precisa.

Se estas sensações ou emoções negativas não aliviarem depois desta época, procurar ajuda especializada como um psicólogo ou psicóloga pode ajudar!

Vamos tentar relaxar um bocadinho, avizinha-se um novo ano para continuar a tentar ser melhor e fazer melhor!

Olá, ansiedade, estás de volta?

Marta Flores

Psicóloga Clínica

Sobre a autora.

Sabe aquela sensação de desconforto, de alerta, ou até de medo, que nos mantém vigilantes, à espera de que algo aconteça? E que desejamos sempre que desapareça muito rapidamente e que não volte? Todos nós já nos sentimos assim em algum momento da nossa vida!

O que podemos não ter consciência é que a ansiedade também pode ser boa e desempenhar um papel que nos ajuda a ser produtivos e ou até mesmo a atingir o sucesso! 

Como assim?

Naquela apresentação importante no trabalho; na preparação para aquele teste difícil da secundária; naquela viagem à noite numa estrada desconhecida em que se manteve alerta durante todo o percurso…a ansiedade desempenhou uma importante função de adaptação e até mesmo de sobrevivência! 

Mas e quando é que ela se torna numa ansiedade desadaptativa?

Quando existem sensações que não conseguimos controlar e que podem interferir com a normalidade do nosso dia-a-dia. Estas sensações podem ser coisas como: desmaios, tonturas, dores no peito, arritmias, mãos suadas, diminuição da força, sensação de falta de controlo na nossa cabeça e no nosso corpo…. Quando estas sensações são intensas e frequentes podem ser assustadoras.

Este tipo de ansiedade é sinal de que existe um problema. Podemos ignorar, colocando a ansiedade numa gaveta bem trancada, bem no fundo do nosso armário. Mas como o problema continua a existir a ansiedade só vai crescer aparecendo em sítios onde anteriormente não a víamos, não a sentíamos.

Em vez de ignorar devemos sim ouvir o que a ansiedade tem para dizer e assim entender a sua origem. Mas como?

Por exemplo, num local tranquilo, procure relaxar com recurso à respiração controlada, inspirando devagarinho como se estivesse a cheirar uma flor e expirando lentamente, como se estivesse a soprar uma vela. Apenas 2 minutos de exercícios de respiração como este podem ajudar-nos a acalmar. Com essa tranquilidade ficamos mais capazes de refletir e de identificar quais as situações que despontam ansiedade em nós. Ao identificarmos as situações vamos compreender verdadeiro porquê de nos sentirmos ansiosos. Outra estratégia passa por elaborar um diário onde escrevemos como nos fomos sentindo e o que fomos pensando ao longo do dia, o que uma vez mais nos ajuda a refletir e a identificar as causas da nossa ansiedade. Tendo identificado as causas, podemos começar a trabalhar para fazer as mudanças necessárias para ultrapassar os obstáculos.

Se continua a sentir dificuldade em gerir a sua ansiedade sozinho mesmo tentando aplicar estas e ou outras estratégias, fale connosco, um psicólogo ou psicóloga, pode ajudar.

Por mais desorganizados que a ansiedade nos deixe, é possível aprender a geri-la, procurando recursos para lidar com ela, é possível aprender a tratá-la por tu!

Olá, ansiedade, estás de volta? O que me queres dizer?

Marta Flores (sobre a autora)

Viver o luto – Quando é demais?

Marta Flores

Psicóloga Clínica

Sobre a autora

“Força! Tens de seguir em frente! A vida continua!”- quantas vezes já dissemos ou ouvimos estas expressões ao longo da nossa vida quando alguém perdeu ou nós mesmos perdemos algo ou alguém significativo? Quando usamos estas expressões é importante percebermos que cada um de nós tem um ritmo diferente e uma forma diferente de reagir a uma perda, seja ela de que natureza for. 

Não há uma fórmula mágica que nos leve para o outro lado da ponte sem passarmos por ela, isto é, é preciso viver a perda. Precisamos sentir o que perdemos. Precisamos chorar o que não vamos voltar a ter. Precisamos que doa. Precisamos entender onde dói. 

Photo by Quino Al on Unsplash

Passamos por um processo de luto em que mais parece que apenas conseguimos garantir os serviços mínimos de funcionamento do nosso corpo ou então onde mantemos o ritmo, mas sentimos outras emoções que nos podem afetar. A nossa reação a uma perda não se fica a dever apenas aos nossos traços de personalidade, depende também de experiências prévias que tenhamos tido, depende da perceção que temos das pessoas que nos apoiam, depende da relação que tínhamos com a pessoa que morreu, depende do significado que tinha para nós aquilo que perdemos…

Nem todas as perdas estão relacionadas com a morte de alguém, podemos perder um emprego, podemos perder a nossa casa, podemos perder uma segurança económica, perder capacidades cognitivas com o envelhecimento, perder um membro do corpo, perder mobilidade devido a uma doença…e em todas elas passamos por um processo de luto, mais ou menos longo. 

Mas, por vezes, a necessidade de reajustar o que somos depois de uma perda não é tarefa fácil. Encontrarmos um novo rumo e (re)descobrirmos quem nós podemos ser depois do desaparecimento daquele elemento significativo pode ser extremamente difícil. Faz parte do processo. É considerado normal por um certo período, por uma certa intensidade e ou por um certo condicionamento do dia-a-dia.

Então quando é que este processo passa a ser não adaptativo?

Quando colocamos a nossa saúde mental em risco. Quando sentimos que a nossa energia parece estar sempre esgotada, quando ficamos irritados com facilidade, quando conseguimos reconhecer que as nossas emoções mais parecem uma montanha russa que não controlamos, quando começamos a evitar sítios com muitos barulhos e ou com muitas pessoas, quando o estar com o outro se torna insustentável porque não compreende a nossa dor, quando nos sentimos ansiosos com falta de ar, com suores frios que aparecem repentinamente, com a sensação que vamos perder o controlo da nossa cabeça e do nosso corpo a qualquer momento. 

Se estivermos a atravessar um momento de perda e sentirmos uma ou mais destes eventos que descrevi de forma descontrolada, é altura de procurar alguém especializado que nos ajude neste processo. Que atravesse a ponte connosco e nos ajude a traçar um novo percurso com sentido!

Se está a ultrapassar por uma fase de perda com mais desafios que aqueles que achou que iria sentir, fale connosco, podemos ajudar a atravessar esta ponte juntos!

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